Estomazil em mãos, porque a parada é indigesta.
Preparados? Então, segura o chumbo grosso que essa tese é pessoal:
Tudo tudo tudo que extrapola um magnânimo referencial objetivo/concreto do real (ou subverte uma percepção superficial de realidade), acaba determinando novos vieses semânticos ou um ineditismo de diálogos comuns. Em outras palavras, imagine a humanidade sem sapatos…
Essa insólita fenda aberta, a grosso modo nas tecnologias e nas artes, ilustra todo um movimento criativo comum ao ser humano. O surgimento de uma nova coisa, um novo conceito, traz em si um corpo alcalino bem dividido em pressupostos positivos e negativos, pares e ímpares. Sempre há quem fique com o pé atrás (vide a cruz eterna que foi a desconsideração do cinema enquanto sétima arte).
A propaganda, por exemplo, não é arte posto que nunca é concebida de forma livre sem declarados propósitos comerciais; mas também, pelo fato de não ter escolas nem regras; consegue facilmente passar por cima de arcaicas fórmulas e conceitos ainda valorizados em sociedade. No fundo, no fundo, propaganda e arte sempre ditaram modinhas, quebraram tabus.
Eis que finalmente chego onde queria: a nova modinha ou a estética do tosco.
Na arte, movimentos de vanguarda como o surrealismo, o dadaísmo e em especial a pop-art (essa andrógena alicia silverstone sem calcinha ao lado de deise tigrona num baile de debutantes), empreenderam uma carga significativa e abstrata de informação transmudada (hoje absorvida e contemplada como natural, mas digerida aos poucos pela comunidade global). Durante muito tempo esses movimentos foram vistos como viagem lisérgica ou piada de seus autores.
O mesmo ocorreu em parte no próprio Brasil com os tropicalistas, os concretos e modernistas (em especial Oswald de Andrade que nunca foi levado a sério no seu tempo).
Essa discussão das vanguardas influi não só culturalmente, mas também no que diz respeito ao caráter efêmero e mutante das tecnologias. Toda produção que apresenta a ponte entre o novo (vide possibilidade ou tecnologia) e o antigo (o conceito, a obra), permite uma leitura comportamental do próprio mundo.
O conceito de beleza se arregaçou, multiplicando o que antes era restrito.Tomemos como exemplo o computador e a internet, que além de facilitar os processos de criação e divulgação, acabaram com essa coisa mística que é dom ou a epifania do artista.
Para criar e inovar, o artista teve que se curvar à equação de máquina + repertório = obra que vende.
Daí temos uma recaída e caímos na sub-versão. Se a obra já nasce sem esse quê artesanal e predestinada a ser popular, temos então a genética publicitária agindo.
E todos que possuem uma verve, querem logicamente ser reconhecidos. Através da tecnologia e facilidades que a internet nos dá, pudemos ter maior contato com coisas boas e coisas toscas que fatalmente tem aparecido.
Obra e autor se confundem logo que todos, se assim o quiserem, podem expor muito bem o que pensam para quem quiser ver, ouvir e ler.
Tendo em vista que não existem mais grupinhos fechados, todos podem ser potenciais artistas.
O radicalismo proposto nessa verdade subverte todas as regras do jogo. Já que somos nossos próprios críticos, o que importa, sendo artista ou não, é ser feliz. E viva la tosquêra!
Dali, o chocólatra